Safra recorde de algodão não tranquiliza indústria têxtil nacional.

Safra recorde de algodão não tranquiliza indústria têxtil nacional
noticias :: Por Editor em 17/03/2011 :: imprimir   pdf   enviar   celular


A estimativa de safra recorde de algodão não é motivo de alegria para a indústria têxtil nacional. A previsão de colher 1,95 milhão de toneladas (dados do Instituto Brasileiro de Algodão - IBA) não tranquiliza o setor que até a chegada da nova safra, em junho, vai ter que trabalhar com um suprimento "muito curto" e com o preço elevado, "jamais visto na história da indústria têxtil", disse o diretor superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel.



De acordo com o IBA, a expansão do preço foi de 300% no mercado interno. O algodão estava em torno de US$ 0,70 por libra-peso (unidade para medir a fibra, equivalente a 435 gramas), no começo de 2010 e, agora, está em US$ 2,40 por libra-peso.

O diretor superintendente da Abit defende a criação de instrumentos que priorizem o abastecimento do setor têxtil para que não volte a sofrer com a falta do algodão. "O que nós temos de ter muita clareza é que, dentro das leis de mercado, a indústria brasileira tenha o seu abastecimento garantido, não só no início desta safra como também no ano que vem, no período de entressafra, que vai de janeiro/fevereiro até maio/junho", disse Pimentel.

Para o presidente do IBA, Haroldo Cunha, a crise atual é resultado dos problemas ocorridos na última safra. A redução da área plantada foi agravada por problemas climáticos que quebraram a produtividade, disse. "A gente deixou de produzir 200 mil toneladas no ano passado. Isso gerou um desabastecimento maior na indústria".

Cunha descartou, no entanto, a possibilidade de faltar algodão para a indústria nacional este ano. Segundo ele, da safra 2010/2011, de 1,95 milhão de toneladas, 1,2 milhão foram negociadas antecipadamente. Mas, segundo ele, isso não significa que seja tudo para a exportação. "A venda antecipada normalmente quem faz são as tradings [empresas internacionais], mas muitas delas colocam algodão também no mercado interno".

De acordo com o presidente do IBA, o panorama para a indústria vai se normalizar no início do segundo semestre. "Porque nós vamos ter uma safra muito grande". O que vai ocorrer, afirmou, é que uma parte do algodão que está sem negociar até agora vai estar nas mãos de comerciantes. "Mas vai ser disponibilizado para o mercado interno, sem dúvida nenhuma". Ele estimou que a exportação deverá abranger 700 mil toneladas do algodão relativo à safra 2010/2011. O restante, 1,2 milhão de toneladas, é suficiente para cobrir a necessidade da indústria, que gira em torno de 1 milhão de toneladas, disse.

O diretor superintendente da Abit, Fernando Pimentel, lembrou, porém, que mais uma dificuldade para o setor é a existência da venda do algodão atrelada a contratos flex, que têm cláusula que permite a mudança de destino. Os produtos negociados nesses contratos tanto podem ir para exportação como para atender o mercado nacional.

O gerente de Levantamento e Avaliação de Safra, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Carlos Bestetti, admite que os contratos flex não é uma boa opção para a indústria nacional em razão do preço, que está muito elevado. "Não serve para a indústria nacional porque, se mudar agora, vai mudar para um preço maior".

Ele acha acertada a estratégia que vem sendo adotada por algumas indústrias nacionais de mudar a localização de suas instalações para atender a questões de logística de transporte. As instalações estão sendo transferidas para estados do Nordeste, como o Maranhão e Piauí, deslocando assim a atuação em Mato Grosso, que é o maior estado produtor, já "saturado", disse Bestetti.

EXPORTAÇÃO RECORDE

A exportação de algodão, prevista para a safra 2010/2011, da ordem de 630 mil toneladas, será um recorde histórico para o Brasil, afirmou à Agência Brasil o gerente da Área de Fibras e Produtos Especiais e Regionais da Companhia Nacional de Abastecimento, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) Djalma de Aquino. Segundo ele, caso se confirme a safra estimada de 1,95 milhão de toneladas, os embarques de algodão nacional para o exterior poderão ser ainda maiores. "Vai depender de São Pedro", disse, referindo-se às condições climáticas no país.

Os técnicos da Conab vão fazer este mês um trabalho em campo para saber o que foi plantado no país efetivamente, de modo a confirmar a projeção anterior feita para a safra, antes da conclusão do plantio. No ano passado, o volume de exportação de algodão atingiu 512 mil toneladas. Esse foi o segundo maior recorde brasileiro na área da cotonicultura. O primeiro foi registrado em 2008 e somou 532 mil toneladas.

Djalma de Aquino lembrou que as exportações brasileiras de algodão vêm mostrando uma trajetória de crescimento. Em 1999, no início do novo ciclo de cultura do algodão, com a mudança de plantio do Sul para a Região Centro-Oeste e a Bahia, e com maior uso de tecnologia, a produção nacional da fibra foi de 520 mil toneladas, com importações de 280 mil toneladas e exportações de apenas 4 mil toneladas.

Em 2000, as exportações subiram para 28,5 mil toneladas, passando para 147 mil toneladas no ano seguinte. As vendas ao exterior mantiveram, a partir daí, uma trajetória ascendente, com exceção de 2002 (110 mil toneladas), 2006 (305 mil toneladas) e 2009 (505 mil toneladas), que apresentaram diminuição em relação ao ano anterior.

A perspectiva é boa, garantiu Aquino. "O mais importante é que nós, praticamente, não estamos importando quase nada de algodão, salvo agora, nesse início de ano, que vai ter que entrar alguma importação, porque não existe algodão no mercado interno". Para não deixar a indústria em falta, o governo federal autorizou a importação de até 250 mil toneladas, entre outubro de 2010 e maio de 2011, que corresponde ao auge da entressafra.

Ele afirmou, porém, que não está fácil adquirir algodão no mercado internacional porque a oferta está reduzida no mundo e os preços estão muito elevados. "Algodão virou ouro. É o ouro branco". As grandes empresas estão atravessando a crise em melhores condições do que as pequenas e médias empresas, porque de modo geral elas têm um estoque de segurança, além de um bom acompanhamento de mercado. Por isso, ele acredita que a importação autorizada poderá não ser efetivada em sua totalidade.

Em relação ao consumo interno no ano passado, cujos números ainda não foram fechados, a previsão é que e tenham alcançado 1,015 milhão de toneladas no mercado. Para 2011, a projeção é de um consumo de 1,065 milhão de toneladas. Como a demanda este ano ficou um pouco reprimida, Aquino acredita que esse volume poderá não ser atingido porque há muitas pequenas e médias empresas fora do mercado. "Algumas pararam e outras estão funcionando parcialmente, em função do preço do algodão e da dificuldade de repasse de subprodutos como fio e tecido".

A China se mantém como terceiro mercado importador do Brasil e, de acordo com as expectativas, poderá ampliar sua participação na balança comercial do algodão este ano. Em 2003, o mercado chinês importou do Brasil 17 mil toneladas de algodão. Em 2005, o volume foi elevado para 77,5 mil toneladas, caindo no ano seguinte para 21 mil toneladas. Em 2010, os chineses registraram o recorde de 84,5 mil toneladas importadas de algodão brasileiro. Os principais importadores do Brasil são a Indonésia e Coreia do Sul.

Djalma Aquino acredita que caso se confirme a safra recorde nacional 2010/2011, o volume de compra pela China poderá se ampliar. "Porque o consumo dela [China] está aumentando". Os Estados Unidos são o principal mercado fornecedor para a China que é, também, um potencial cliente do Brasil, disse o gerente da Conab.

FONTE

Agência Brasil
Alana Gandra - Repórter
Aécio Amado - Edição

Links referenciados

Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção
www.abit.org.br

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
www.agricultura.gov.br

Companhia Nacional de Abastecimento
www.conab.gov.br

Agência Brasil
www.agenciabrasil.gov.br

Conab
www.conab.gov.br

Abit
www.abit.org.br

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